terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tempestade e o Egocentrismo

A fúria do vento sopra as palavras para longe de mim. Não saber o que dizer, como agir e tampouco o que sentir. Tortura.
Continuo seguindo em frente, com a cabeça baixa, para o vento ardente não encontrar meus olhos sensíveis a tudo. Sigo para o fim dos tempos, no limite do horizonte escuro e turvo que enevoa minhas idéias que antes eram tão lúcidas.
E por fim minha alma se perde na imensidão da tempestade.
Perco o tato, enquanto tento ser mais rápida que o raio prestes a cair, que anseia me despedaçar - como se eu já não estivesse partida em mil pedaços.
Naquele deserto breu, encontro algo, ou melhor, alguém. Ouço um choramingar de criança em meio ao barulho do vento que ensurdece qualquer tímpano.
Ela estava sentada nas escadarias da igreja, e o sino que pendia de um lado para o outro fazendo o som ressoar com a ajuda do vento, numa das torres da velha igreja com seu formato gótico. Seus vitrais coloridos, em meio à escuridão, era o que se destacava.
E a menina branca como a neve canadense, e imagino que gélida como tal. Com os braços jogados como laço por cima das pernas, com a cabeça baixa. E os cabelos louros como fios de ouro.
Aproximo-me da pequena criatura sensível, e percebo que estava certa quanto a temperatura de sua pele.
- O que está fazendo aqui? - pergunto sem nem perceber.
- Não tenho para onde ir - responde a menina, erguendo a cabeça, então seus olhos azuis como safira, encontram os meus, trocamos um olhar de suplica. Aqueles grandes olhos inchados do choro, daquela pequena menina me fitavam. Ela tinha o olhar como o meu, de quem precisa de algo. Como se gritasse – Me ampare - sem mover a boca.
- Qual o seu nome? - pergunto desafiadora.
- Tempestade.
- Sim está sendo a pior tempestade que já presenciei.
- Você entendeu errado, meu nome é Tempestade.
- Que brincadeira é essa?
- Perceba que agora que parei um pouco de chorar, a chuva se acalmou.
- Está querendo dizer que quando chora surge chuva?
- E quando estou profundamente magoada, brinco com o vento, raios e trovões que me obedecem como uns cãezinhos.
- Você está delirando. Deve ter ficado muito impressionada com o que viu. Onde estão seus pais?
- Todos têm medo de mim, quando minha mãe descobriu meus poderes me deixou jogada por ai, como um verme. Algo repugnante.
- Logo que passar a tempestade, levarei você a um psicólogo, e se não acharmos seus pais, você poderá morar comigo e meu marido, iremos ser felizes, independente de laços sanguíneos.
- Eu não estou delirando – protestou a fria garota.
- Tudo bem querida, você irá ficar bem. Talvez não seja necessária a internação.
- É você quem está delirando.

- Acorda mamãe - uma voz gritava em meu ouvido.
Abri meus olhos e senti minha cabeça pesada, como sempre, logo após de longos sonhos.
- Quem é você?- perguntei assustada, apesar de conhecer aquele rosto.
- Sou sua filha.
- Eu não tenho filhas.
- Você prometeu que os laços de sangue não seriam problemas, mamãe.
- Não sei nem seu nome, como pode ser minha filha?
No mesmo instante em que acabei de falar friamente, ela começou a chorar. E através das janelas, vi gotas de chuva molhar os vidros, e os pingos tamborilavam em cima do telhado.
Um homem alto, com os cabelos escuros, e com óculos que impediam de que eu encontrasse diretamente seus olhos azuis, entrou pela porta. Pegou a menina no colo, como se fosse somente um brinquedo frágil e como se quisesse impedir de que ela se quebrasse em pedaços.
- Não chore Tempestade. A mamãe está com problemas.
- Papai, vocês também irão me abandonar?
- Claro que não, pare de chorar, se não irá dar um grande problema aos agricultores.
- Papai eu estou provocando tudo isso, ela está confusa graças a mim, pois eu exerço um grande poder sobre sua mente, e não consigo me controlar, eu reviro a mente dela. É por isso que ela está assim. Eu sou um monstro.
- Por favor, Tempestade. Então, pare com isto!
- Eu não posso.
- Então saia já desta casa. Olhe o que está fazendo com minha mulher. Você irá nos destruir, dia menos dia. Eu avisei a ela para não trazer você para cá, mas ela insistiu. E agora você está sugando a memória da mulher que te deu um abrigo.
- Mas eu...
- Saia, já daqui. Não agüento mais. Você só nos trouxe problemas.

Tempestade saiu, fechando a porta com toda a força. E voltou para a escadaria da igreja.
Chorou tanto naquele dia, que provocou o maior prejuízo na cidade desde os últimos séculos. E neste mesmo dia fez com que o vento levasse seu recado a todos. Ela achava que se não pudesse ser feliz ninguém mais seria.
Tempestade era egocêntrica, mesmo tendo poderes sobrenaturais, nela aflorara o pior defeito humano.

4 comentários:

apenas disse...

que dó da tempestade hm*

Carlos disse...

adorei sei blog.
parabens

carlos

disse...

Depois de seca a tempestade tem seu bem. Se bem que deixa de ser tempestade.
Beijo

Sílvia disse...

muito bonito :) e a chuva cai lá fora...