quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A minha overdose e as quase overdoses de João


Johnny Boy, assim que era chamado por seus amigos, e foi com esse codinome que eu o conheci. Começamos a conversar logo após de uma crônica minha ter sido lançada em um jornal estadual. Trocamos várias ideias e chegamos à conclusão de que tínhamos pontos de vista parecidos. 
A partir daquilo nos aproximamos cada vez mais. Paulatinamente eu encontrava fragmentos meus nos olhos dele e vice-versa. Era algo mágico, eu habitando a alma dele e sendo refletida naqueles grandes olhos verdes que pareciam um par de bolinhas de gude. Não sei como, nem o porquê daquelas coisas acontecerem.
Eu me apaixonava pelos livros que ele me indicava, pelas músicas que cantava e pelo seu apego a família. Eu via nele o pai dos meus filhos e o meu esposo perfeito, apesar de renegar esses clichês femininos. Todos me criticavam quando revelei estar apaixonada. Jogavam na minha cara que a minha tristeza era iminente. E realmente foi. Mas aquele sentimento era o que me norteava e me ensurdecia naqueles meses que me engoliam.
Não era a maconha que provocava aqueles delírios, nem era o pó que me apagava. Era aquela paixão que ora me levava ao céu, ora me levava até o inferno. E muitos dos nossos encontros acabavam no hospital. Johnny colecionava inúmeras quase-overdoses. Enquanto a minha overdose era dele.
Numa noite quente de novembro, eu resolvi me entregar. Foi a primeira e única vez em que fui ao apartamento dele. Com bebida alcoólica demais no organismo, nem me lembro de como chegamos lá.  Apenas me lembro do modo que ele deslizava as mãos por meus braços, o quanto beijava meus lábios rispidamente, ferozmente enfiando sua língua despudorada em minha boca que insistia em continuar fechada. Prendia-me naquela cama com seu peso sobre mim. Enquanto rasgava meu vestido frágil de cetim, eu olhava para o cenário catastrófico ao meu redor. Onde estava a sua prateleira cheia de livros de poesia? Onde estavam as fotos da família? Onde estava aquela pessoa que me inebriava por transparecer sinceridade?
Eu desejava que aquelas paredes verdes e velhas que me causavam náusea se esfarelassem e ficassem no mesmo aspecto do pó que sorvíamos nas madrugadas. E as minhas mãos que antes tanto queriam mapear seu corpo, agora queriam arranhá-lo até sangrar. Eu não o desejava mais, pelo menos não aquele João que estava me aterrorizando. Como ele pode me enganar dessa forma? 
Não era uma simples questão de abrir ou não as pernas. Eu não lhe ofereci meu corpo. Eu havia lhe oferecido minha alma para ser o repouso dele.  De onde surgiu aquela grosseria? Ele não me deixava escapar, me agarrando com uma força sobrenatural. Eu choramingava, implorando para ele me levar para casa, dizendo que não queria fazer aquilo. Era mais um dos meus sonhos que virava pesado. Quanto mais eu gritava, mais meu eco retumbava.
Eu o estapeava, mas eu não conseguia achar forças o suficiente. O choro me deixava fraca. Enquanto sentia sua ereção contra as minhas pernas, eu o implorava que parasse. Mas os seus olhos verdes não transpareciam mais ternura. A porta do quarto era toda riscada com desenhos horripilantes que somente tornavam aquele cenário ainda mais amedrontador.
Quando ele me penetrou, a dor se espalhou por todo o meu ser. Eu havia me deixado envolver por um falsário. Aquilo não era amor, e sim uma agressão. Não doía a ideia de ter deixado de ser intocada. O que mais latejava era a ideia de ter sido enganada por um grande ator. Aqueles atos brutais soterraram as memórias boas.  E a poesia que dele exalava se calou. A partir daquela noite, os poemas de Vinícius de Moraes perderam o brilho e virei uma niilista seguidora de Augusto dos Anjos.


Radiohead - Fake Plastic Trees


Um comentário:

Carlos Cruz disse...

Que triste... mas bem escrito. Gostei