terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Colcha de Retalhos


                Eu sempre saía de casa com o desejo de me esbarrar em você em uma esquina qualquer. E quando isso não acontecia, eu te projetava em outros corpos, porque eu acabava sempre vendo alguém com feições parecidas com as tuas. Talvez eu devesse me contentar com a colcha verde de retalhos que você deixou sobre a minha cama antes de partir ou com o perfume impregnado no travesseiro.  
Foi em um dia frio, na lanchonete da esquina de casa que ele surgiu bebericando café. Ele tinha o mesmo semblante teu e juro que quando o vi, pensei seriamente que era você. Coitado dele, mais um boneco que usei pra essas minhas maquiavelices. Como ele podia ser tão parecido contigo?
As minhas pernas não ficaram bambas ou coisas do gênero, nem meu coração pulsou mais forte, e nem houve clichês de novela. A única coisa que houve foi uma dor que percorria todo o meu ser, como punhaladas continuas e lentas.
Nas mãos ele segurava uma antologia de Manuel Bandeira. Diferente de você, que vivia lendo Millôr Fernandes. Nos olhos verdes dele não havia resquícios de mágoa, como nos seus existem gritantemente. A boca dele era carnuda também, mas sem gosto de cigarro.
Parti para o xeque-mate, achando que ele sustentaria todas minhas ilusões. Preencher o teu lugar com um clone parecia uma ideia genial. Realmente, ele era lindo. E contava história das viagens que fazia para o Timor Leste. Lia livros clássicos e escrevia poemas concretistas.
Eu o aceitei em minha vida, ele inocentemente acreditava em meus sentimentos, enquanto eu só estava tentando tapar os buracos do passado. Ás vezes eu achava que aquilo poderia mudar e que sentimentos bons poderiam proliferar subitamente daqueles abraços melosos e de noites intensas.
Levei aquela enrolação até o último instante. Até a hora de ele se mudar para o meu apartamento e querer me mudar, sem contar o fato de que ele queria te apagar de mim. Só que obviamente apagar você de mim, requeria apaga-lo também. Afinal de contas, você era o motivo da emboscada que eu me meti.
Chegamos ao ponto de quase nos estapearmos. Tudo ele discordava. Nada estava bom. Desde as minhas ideologias até a decoração de casa. E o estopim para que começasse a verdadeira guerra foi o comentário sobre a sua colcha verde. Recusei-me a doá-la, vende-la ou joga-la no lixo. O teu perfume já havia sido substituído no travesseiro, mas da colcha eu não me desfaria.
Eu prefiro tuas músicas. Eu prefiro teu cheiro. Eu prefiro teu sorriso contraditório aos teus olhos. Eu prefiro tuas bobagens diárias a essa maré de intelectualidade que afoga meus ouvidos. Não me basta uma imagem plagiada de ti. E a nossa colcha eu não jogo fora, porque é ela que me aquece nessas noites de inverno. Ele era só o teu físico transitando pela rua da minha casa. Era só a tua carcaça.  Só isso não me contenta.


VERAL LOCA - COLCHA DE RETALHOS

3 comentários:

Mony Gabriely disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mony Gabriely disse...

Quando a gente ama de verdade, esse amor permanece em nosso coração por muito tempo. E fica difícil de esquecer. Muito legal esse texto. Adorei ler e a sua maneira de escrever.

percepcaooculta.blogspot.com

Hellen Hosseini disse...

Ah, meu coração... Tu escreve lindamente.