segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Velório sem defunto

Estou aqui no quinto andar da ala leste da tua casa. Observando uma pequena fatia da Porto Alegre de teus amores. A chuva pinga em meu rosto, mas não me afeta. As pessoas de dentro do café acham que estou surtada, talvez pelo meu olhar inquieto ou pelas minhas vestimentas esdrúxulas.
Fazia muito tempo que eu não me permitia voltar até aqui. É incrível todas as sensações que esse lugar projeta em meu ser. Sinto-me mais humana e ainda mais amante da arte. É uma pena que esse mundo a parte tenha sido erguido somente após a tua morte, pois com certeza esses ares são ainda melhores que aquele velho hotel de tuas mortas memórias.
Agora eu mesma acredito em meu surto: acabo de te ver em carne e osso sentado na cadeira ao meu lado - piscando galantemente e bebericando um cafezinho. Logo que percebeu meu espanto ao ver um morto, começa a sorrir, como se isso amenizasse o fato sobrenatural que está regendo o momento mais maluco de minha vida.
Será a setralina com um efeito rebote? Será o vinho de ontem? Será que tinha algo de ilegal no buffet de hoje?
- A tua arte poética é verdadeira, menina. Não aparentas estar a fazer relatórios, pois deixa implícito muitas coisas. Tua arte é poética. Tua vida é poesia. – sussurrou ele calmamente.
- Isso é um absurdo! – digo indignada.
- A coisa mais absurda da vida é a própria vida, querida − ele continua a manter a calma em sua voz enquanto fala.
- Isso é muito estranho. Não estavas tu morto?
- Os vivos e os mortos sempre tiveram uma coisa em comum: não acreditamos muito uns nos outros... Mas está na minha hora, preciso regressar, por mais que eu tenha escrito um “Velório sem defunto” meu caixão no cemitério me espera.
Após proferir a última frase, aquela imagem tão real, tão de carne e osso se dissipa. Os meus pensamentos ficam ainda mais embaralhados. Tenho então a ideia de questionar o garçom, teria ele visto também o Mario Quintana?
- Não vi nada estranho, somente percebi você conversando com um passarinho, mas não o achei muito parecido com o Quintana – zombou o funcionário do café.


2 comentários:

Na Ponta da Língua disse...

Se te referes a Casa de Cultura Mario Quintana, realmente é um lugar mágico. Dá até arrepios!

Autora da História disse...

É a Casa de Cultura, Vanessa. Muito linda por sinal, né?